terça-feira, 30 de setembro de 2014

Pra quando eu voltar - Anorkinda

terça-feira, 30 de setembro de 2014
Era uma tarde fria que se estendia lânguida pela paisagem tranquila... Instabilidade, tensão e uma quentura nauseante apenas a meu interior perturbava. Acabara de naufragar, eu que tão habituada estava a navegar sozinha por estas águas... Mas a tormenta hoje fora implacável!
Há alguns dias eu observava o céu e sabia que ela viria forte, porém desdenhei de seu poder e segui com meus planos e minha rota... Eu deveria ter recuado... Mas que bobagem pensar no que deveria fazer e não se fez, o momento agora é trabalhar com o que se tem.

Eu sentia que o frio aumentaria ao cair da tarde... Nada de minha embarcação veio comigo até a praia, minhas roupas molhadas... Preciso secá-las. Observo toda a calmaria ao redor, nenhuma semelhança com a borrasca que caíra a pouco. O mar está levemente agitado, mas já não grita em furor como antes...

Estendo minhas roupas na vegetação à beira-mar... Venta. Protejo-me encostada a uma grande rocha, em sua solidez ela resguarda o calor do sol que a banhou durante toda a manhã. Sinto-a. Preciso ter a sua firmeza para encontrar o rumo de casa. Onde estarei?

Este lugar me é familiar como quando se quer lembrar de um sonho, mas ele não vem à memória... É uma sensação vaga. Olho para aquela calma toda e parece-me que ela já fez parte de mim, um dia.

Visto-me e procuro por um abrigo para passar a noite. Não vou adentrar-me na ilha, encontro logo perto da grande rocha uma árvore com um oco ótimo... Sento e espero a noite chegar e espantar dele uma coruja, moradora por direito e natureza.

Penso em minhas possibilidades, não posso esperar por ajuda náutica... Ninguém é responsável por ninguém nas águas deste oceano imenso, ninguém perceberá meu naufrágio. Precisarei alcançar minha própria salvação!


Quando amanhece estou nauseada de fome e por não ter dormido quase nada naquela desconfortável toca de coruja. Procuro frutas silvestres... Eu, como todos de minha aldeia, sei sobreviver sozinha em lugar inóspito.


Separo alguns gravetos para secarem ao sol, farei uma fogueirinha para o almoço mais tarde. Olho para a pequena floresta que se segue ao interior da ilha, não é densa, é ensolarada e muitos pássaros cantam  esta hora da manhã... Cantos combinados, parece uma sinfonia alegre, alguns deles passam rasantes em direção a areia da praia.

Não tenho tempo para devanear mas esta cantoria e estes pássaros cavoucando a praia me parecem tão familiares...


Começo a trilha ilha adentro, preciso planejar uma maneira de escapar-me daqui e voltar a minha vida rotineira pelos mares da região. Um animal me fez parar, olhava-me tão atentamente, também ele parou. Sua refeição ficara estagnada em meio a boca... Parecia que ele me reconhecia, se eu lesse pensamentos, diria que ele pensou: Oh! Há quanto tempo! Era um cervo. Grande, bonito, lustroso, com uma imponente
 galhada.

Me veio um flash à mente de um filhotinho de cervo, dengoso, amigo, de olhar atento... Não sei o que são estas sensações todas, sigo pela trilha, o cervo começa a acompanhar-me. Presto mais atenção a ele do que ao caminho ou às ideias que preciso ter para voltar pra casa.

Quando percebo entrei numa pequena clareira, perfeitamente circular há matos e trepadeiras crescidas, mas vê-se que um dia aquele espaço fora cuidado por mãos humanas. E no centro dela, uma pequena casa... Senti-me sem pensamentos, um arrepio perpassou-me o corpo, o cervo seguiu até a casinha e parou cheirando uma porta escondida pelas plantas.

Mas eu simplesmente não podia ir até lá... Minhas pernas não moviam-se. Sentei ali mesmo temendo desmaiar. Olhei a volta e comecei a nomear as árvores ali existentes. Ali uma macieira de frutos bem cheirosos, aquela outra é um pessegueiro com suas lindas flores... aquela outra... Como eu sei delas? Fecho os olhos. Revejo minha vida, sempre singrando, compartilhando com meus amigos da aldeia das pescas, das aventuras, dos mistérios do mar. Como posso saber das coisas desta ilha?


Olho a posição do sol, já seria hora de voltar a praia e preparar algum almoço. Mas não estou disposta a abandonar esta clareira, sem decifrar todas estas sensações estranhas. Levanto-me e vou até a porta da pequena casa, o cervo está alimentando-se por perto. Quebro vários galhos de uma trepadeira que reconheço ser plantada por alguém, não é nativa. Abro a porta sem dificuldade... Meus olhos deparam-se com um sonho!

Reconheço extamente tudo o que há ali e misteriosamente os móveis não estão estragados ou mesmo empoeirados. Está tudo razoavelmente limpo, se não fosse o mato crescido impedindo a entrada e a abertura das janelas, eu diria que alguém vinha limpar aquela casa de vez em quando.

Revisto tudo, tudo, tudo... Conheço tudo o que há ali! Mesa, cadeira, armários, a um canto, duas camas... Em cima do travesseiro vejo uma carta. Em papel bonito, feminino, a letra infantil mas delicada, de menina, penso eu.

"Para quando eu voltar...

Esta minha casa querida onde vivi desde que nasci, vai ficar me esperando, meu amigo pequeno cervo vai ficar me esperando, minhas árvores preferidas também. Minha mãezinha diz que vou esquecer daqui, porque vou conhecer muita coisa bonita lá fora, mas eu não vou e quando eu voltar tudo estará aqui para mim.

Eu não quero esquecer de ser feliz!"

Atiro-me à cama que agora lembro que era de minha mãezinha... Lembro perfeitamente de quando ela disse que todas as pessoas esquecem-se completamente da felicidade de ser criança. Não mamãe... Eu não esquecerei novamente!

Levanto e corro a abrir as janelas pelo lado de fora, arrancando os excessos das trepadeiras... Estou de volta e daqui, do meu lugar, eu poderei lançar-me a novos desafios e navegar pelos antigos também, por que não? Agora sei que todas as soluções me encontrarão assim como eu encontrei-me...

Anorkinda

3 comentários:

Mogg Mester disse...

Belo texto, Anorkinda. A sensação nostálgica que ele passa é velha conhecida de todos nós. Gostei do toque dado às velhas lembranças de infância e o belo tom campestre emprestado à narrativa.

Anorkinda Neide disse...

Obrigada pela leitura!
O conto ficou com uma pegada psicológica, foi a história que se fez, eu não tenho muito poder sobre o desenrolar de meus contos não, os personagens se impõem e aqui quem foi me levando pela mão foi o cervo... rsrsrs
Abraço

Ben Oliveira disse...

Gostei muito do final catártico, libertador.
Identifiquei-me com a protagonista. Buscar a alegria e se reencontrar... Não é o que todos nós fazemos ao longo de nossas vidas?
Abraços

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