quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A ascensão do rei de Almorvis

quinta-feira, 2 de outubro de 2014
      Muitos já perguntaram por que Petras Markvell chamava sua espada de duas mãos de Clementina. Ele jamais respondeu. Diversos homens achavam que era louco, mas ninguém teve coragem de lhe dizer pessoalmente. Até mesmo por que havia se tornado um furioso.

         Entretanto poucos realmente souberam da influência que ela teve em sua ascenção como rei. É uma história bem humorada, que envolve um rei, um aventureiro, muita cerveja e vaidade. Além de Clementina, é claro.

       Tudo começou quando Petras Markvell bebia com os outros Lâminas Flamejantes nos salões pouco iluminados de Gorack. É que o rei Roman, sucessor do antigo rei Mark II, a quem o anão tinha como modelo de pai, senhor de terras e lutador, havia promovido mais uma reunião entre seus amigos mais próximos.

         Todos sabiam da queda de Roman pela vida aventureira. Quando assumiu o reinado, deixou bem claro que não desejava reinar. Preferia a vida nas batalhas, nas guerras contra outros reinos, bárbaros e criaturas incômodas aos humanos. Ser rei o deixou gordo, displicente e boêmio. Governar era tão chato que lhe restava apenas os saraus, as putas e a bebida.

        A despeito disso, apesar de serem grandes amigos, ele nutria por Petras Markvell uma inveja latente e não reconhecida. Não pelas habilidades de guerreiro, mas pela possibilidade de continuar nas viandanças por Kronir, decapitando povos rudes, sentindo a maravilhosa sensação de lâmina cortando carne, e pondo sua vida em risco constante. A isso ele não perdoava o anão por ter, sem que ele também tivesse. Por isso tinha de tirar-lhe de alguma forma. E não havia nada melhor do que a que lhe passava pela cabeça.

        Poucas coisas haviam de melhor para provocar o anão do que a sua famosa Clementina. Uma delas era duvidar de sua habilidade com a arma. Mas Roman estava dominado pelo espírito da pirraça. Por isso, achou coisa melhor do que a espada que, ele tinha certeza, o anão provaria ser melhor.

         E foi numa partida de duques e armas, um jogo em que inspirava a competitividade, que ele decidiu começar com seu jogo verdadeiro.

     – Derrubei o castelo, oh, Vossa majestade gorda e roliça. Com mais dois movimentos certos de minhas unidades eu derrubo seu ducado e ganho o jogo – disse o anão de maneira provocativa.

        Roman já sabia que era inferior ao anão no jogo. Poucas vezes ele conseguia uma vitória, mais por sorte do que por perícia. Ele não tinha a paciência necessária para formar estratégias sólidas para derrotar o adversário. O jogo, porém, era apenas uma desculpa para ele começar uma conversa voltada aos seus intentos.

     – Claro, meu poderoso amigo. Você, sem dúvida é um jogador malicioso. Certamente deve ser assim como guerreiro. Mas já não sei tanto se como governante. Aposto cem goraquinas de ouro que não passaria um mês como rei e ainda assim manteria as duas qualidades anteriores. Duvido que se mantivesse tão bom lutador com essa espada de meteco se fosse um rei…

        Obviamente, o despeito do anão ao que fora dito não era daqueles que provocam raiva, mas que são instigados pelo desafio e se deixam levar pela troça. Entre eles dois pairava um clima de amizade abusada, que leva um a ficar provocando o outro com insultos absurdos inverídicos. No fundo, ambos sabiam que se admiravam e respeitavam. Formalidade dentro da informalidade.

      –   Sabe, se o rei Mark nos tivesse como filhos carnais, eu seria o sucessor dele. Com certeza não confiaria o reino que governara por décadas a um incompetente bufão como Vossa majestade – respondeu à traça com outra.

     –  É mesmo? Então, como você governaria Gorack? Como seria esse rei supremo que afirma ser e ainda se manteria um lutador formidável que é com a dita Clementina? – perguntou Roman que sabia da falta de interesse do amigo em ser senhor de terras pelo simples fato de preferir matar em campos de batalha.

       –  O que você acha que querem os homens? O que acha que eles desejam de seus reis? Eles procuram achar, em outros, os líderes e reguladores que têm em si e temem assumir por que são incompetentes, ou por que temem do que possam vir a fazer quando o poder lhes subir à cabeça. Eles procuram quem lhes administre as vidas de forma que possam ver alguns dos seus sonhos realizados. Quando estes governantes já não são mais capazes de realizar esses sonhos ou a função está além de seus limites de mortal, eles recorrem aos Deuses. – e olhou para Elnhon Madoks que não alimentou o sarcasmo habitual do amigo – Tornam-se inimigos daquele que antes admiravam. Esquecem-se de sua fidelidade, do que devem ao homem a quem confiaram a administração das terras onde vivem, e a sua própria proteção. Dedicam-se a algo duvidoso, que sempre lhes traz um consolo, uma esperança. Será sempre assim nos reinos onde o rei não se faça por uma sólida autoridade que às vezes possa vir a ser severa com todos, sem distinções de nobres ou camponeses, e muitas outras seja paternal.

    –   Então me diz que tem a fórmula  para um reinado perfeito? – atiçou-o Roman.

    –   Quase isso.

        Petras Markvell governaria pela arte da espada e com o sal da diplomacia. Todos os súditos que o servissem saberiam manejar uma arma. Todas as crianças seriam educadas, e desde cedo aprenderiam a ser fiéis ao seu reino. Todos arranjariam um trabalho; não admitiria vagabundagem. Destruiria os inimigos pessoalmente e atrairia seus antigos servos sob sua proteção, fornecendo-lhes algumas terras ruins, e eles se dariam por satisfeitos. Seus impostos seriam baixos, mas, jamais, deixaria de cobrá-los.

–   Deixar de lado o dinheiro de um reino, é mostrar ao povo que este mesmo reino é negligenciável, portanto, para que ter fidelidade? – disse enquanto sonhava com as terras que teria sob seu controle. – Usarei o dinheiro de minhas conquistas na agricultura, em pedreiras, educação militar, construções e expansão do reino. Não admitirei fome. Se alguém chegar faminto, manda abater um carneiro do meu próprio rebanho e doarei à família do infeliz. Assim o beneficiado fica em débito comigo e pelo resto da vida e passa a servir-me como gratidão…

     –  Tudo isso é muito belo nas palavras – atalhou Roman. – Mas a prática é diferente… suas ideias não me convencem. Ando meio atarefado demais para ser rei de tantas terras. Mas, infelizmente, não posso abandoná-las. Proponho uma coisa: há uma território ao sul de Gorak onde tribos de povos rudes vem importunando os senhores locais com saques constantes. Foram terras anexadas a Gorack por meu pai, mas que eu não tenho disposição de governá-las, Nem tempo para ir até lá resolver o assunto.

      –   Que tipo de rei não toma conta de suas terras? – pilheriou o anão.

     –  O mesmo tipo que prefere tomar conta de suas mulheres – disse Roman tentando evitar o desvio da conversa com outros assuntos. – Como Dan já é duque e tem os problemas dele com os bárbaros a sudoeste, Zarlack tem seu laboratório e Croniver Mesh é um matuto, resta-me você como guerreiro que vai ter de administrar, guerrear, conquistar, matar e todas as outras coisas. Se conseguir realizar tudo isso, pago-lhe as cem goraquinas de ouro e você ganha a aposta. Mas se seu “reino” fraquejar, você será despojado de tudo, inclusive de Clementina, que ficará pendurada em minha parede do quarto como lembrancinha de seus tempos de matador.

      O orgulho do anão era forte. Ainda mais bebendo. Detestava o fato de parar de viajar para governar em nome de outro alguém que não o rei Mark II, ainda mais ao sul do continente, local reivindicado como parte de Gorack, mas cuja manutenção era quase impossível por causa da diversidade étnica que havia ali. Entretanto, o desafio de Roman era como uma obrigação para ele. Ou o derrotava, ou seria pilheriado pelo seu rei-irmão pelo resto da vida roliça dele.

     –  Desafio aceito. Mas só ficarei por apenas alguns meses…

     –  Dois anos – disse Roman, na esperança desse tempo ser suficiente para o que desejava.

         O anão pensou. Olhou para Zarlack Dreyfus inquisitivamente, mas o mago deu de ombros como se dissesse “problema seu”. Os outros também se mantiveram à parte. Sabiam que Petras Markvell mantinha ideias de governo como os de Mark II, quem os defenderia até o fim e, até mesmo mataria por eles. Ele acreditava naquilo. Tanto que decisões foram tomadas embora soubesse que sua consciência o incomodaria pelo resto da vida.

  – Dois anos. Eu vou matar todos os logrrins que houverem lá. Vou transformar aquele sul no que você jamais conseguiu, Roman – disse o anão contrariado. – E farei isso tudo com a ajuda de meus discípulos furiosos, sendo um furioso – disse em complemento. – Em dois anos, não haverá logrrin que não já tenha ouvido falar de mim. Até os bárbaros vão preferir Dan Fhorgen à minha presença.

    –  Se for capaz mesmo, farei uma festa, pago seu dinheiro e o nomeio rei. Caso contrário, já sabe… Clementina vai para a parede de meu quarto.

         E assim a noite seguiu enquanto os dois discutiam os demais termos da aposta.

         Para a surpresa de todos, o anão partiu no dia seguinte com seus dois discípulos, um punhado de dez cavaleiros e vinte lanceiros. O resto era com o que havia lá, na província de Almorvis.

         Dois anos se passaram e, de fato, todos os logrrins foram mortos por Petras ou por seus homens. Ele governou como um senhor de terras sob a sombra de sua espada e sobre o sangue de seus adversários. Nunca houve no sul tantas cabeças fincadas em estacas quanto naqueles dois anos que se seguiram à aposta. Logo a província se desenvolveu e se tornou um ponto forte do reino. Nenhuma tropa, nem sequer batedores inimigos, conseguiam atravessar Almorvis. A prosperidade foi tanta, que a cidade até muros tinha.

         Passado o tempo, Petras Markvell foi até Gorack para receber as cem goraquinas de ouro de seu rei.

    –  Tome seu dinheiro… – disse Roman que já sabia de sua derrota. – e me devolva a sua coroa de ferro de duque. Você pode voltar agora à sua vida de aventureiro. Já tem o que precisa. Sua espada almeja por mais vítimas.

        Entretanto, Petras Markvell não tirou a coroa de ferro da cabeça.

    –   Você disse que eu seria coroado rei… não acha que suas palavras valem mais do que essa sua barriga de bosta, Vossa majestade?

        Nesses dois anos, atuando e pondo em prática toda a ideologia de seu ídolo, Mark II, o anão havia se apaixonado pela arte de governar terras. Jamais se sentiu mais próximo de seu antigo senhor do que regendo Almorvis. Mesmo sob o jugo de Roman, de quem ele discordava enquanto senhor de terras.

    –   Então você quer ser rei? – perguntou Roman, sem se abalar com o que seu amigo sarcástico dissera. – muito bem. Hoje à noite será a cerimônia. Dou a Almorvis a independência de Gorack e um rei que por mérito a governará.

        A coroação de Petras Markvell foi digna de um imperador. Ele voltou a Almorvis e por muitos anos fez com que aquele reino crescesse a ponto de se tornar tão poderoso quanto Gorack.

        Mas a festa foi esquecida, a aposta também. Exceto o que dissera o rei a um lorde invejoso que via o Lâmina flamejante partir da capital do reino com uma coroa de ouro.

     –  Mas, majestade, dar uma província a um anão, é subtrair terras de seu reino. Perde poder, perde recursos e perde o respeito dos seus subordinados …

         Apesar do dito pelo nobre, Roman se sentia como se houvesse ganhado um jogo de duques e armas contra Petras Markvell sem que o anão soubesse. Ganhara estrategicamente, em seu dia a dia, aquilo que no tabuleiro não tinha paciência de ganhar. Com um toque de humor, e aproveitando a fraqueza do anão, Roman havia provado a si de que era capaz de raciocinar de maneira astuta. Ele havia atingido seu objetivo sem que o orgulhoso anão percebesse o que de fato ele queria com a aposta.

         Com o joguete ele conseguiu realizar três intentos seus: satisfazer a vontade de seu falecido pai, que antes de morrer queria que o mesmo se tornasse senhor de terras em Gorack; Satisfazer o desejo do anão em concretizar o desejo de Mark II de que ele fosse um nobre e reduzir o número de responsabilidades sobre si.

    – Como um anão pode governar humanos, sem que haja problemas? – insistiu o invejoso.

        Era outra coisa em que Roman havia pensado. A vontade de seu pai era que Petras fosse rei de Gorack um dia. Só que ele era um anão e estava resistente. Com a aposta vencera duas forças contrárias o repúdio do anão em governar e o repúdio do povo contra ele. Humanos gostam de dever honras a humanos. Restou-lhe somente Almorvis para que o anão levasse aos humanos de lá a esperança perdida. Isso permitiu que ele ascendesse sem resistências por parte do povo, já que ele os livrou das guerras constantes e dos massacres.

    –  Eu prefiro perder uma província de meu reino e ter um rei amigo protegendo o nosso traseiro no sul, alguém com quem poderei contar em tempos difíceis, do que mantê-la e perdê-la eternamente para inimigos que nada mais querem do que nossa destruição – disse o sábio rei de Gorack que com a brincadeira tola conseguira mais do que vencer um jogo na vida real: conseguira um aliado implacável e um rei digno das terras que conquistou.

Mogg Mester

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 
◄Design by Pocket